terça-feira, 1 de abril de 2008

ESTILOS MUSICAIS - VII — PERÍODO APÓS 1890

1. VISÃO GERAL



Não é fácil sintetizar o que ocorreu desde o final do século passado no campo da composição coral. Os compositores do fim do século continuam a tradição coral herdada, mas introduzem um elemento novo, o efeito timbrístico. Utilizam este efeito para evocar um certo clima em determinado ambiente, ou o empregam como elemento de brilho. Qualquer intenção de classificação de estilos, pode levar ao perigo do encapsulamento, o que viola a realidade, que sempre foi fluente e multifacética.


2. NOVAS TÉCNICAS

Impressionismo

Se observarmos a obra coral de Achille Claude DEBUSSY (1862-1918) “Trois Chansons” teremos um resumo do que aconteceu nesta época:


· melodia fluente.

- melodia doce e expressiva.

· acompanhamento com caráter instrumental.

- o baixo imita o ritmo do tambor e do pandeiro, uma das vozes é rítmica e metade mantida em ritmo de dança, um pouco mais velada.

· e a mistura de timbres provocados pelos contraltos e tenores, que ambientam o texto poético. Devem formar um timbre mais homogêneo, facilitado pela boca chiusa.

· a harmonia surge apenas como um fator timbrístico.

- as partes rítmicas exigem uma execução precisa, bem articulada e impulsionada por uma energia contida.

Expressionismo

Existem diversos autores e obras, que bem caracterizam esta época, tais como:

· Arnold SCHÖNBERG (1874-1951) - “Paz na Terra”

· Charles IVES (1905-1963) - “Three Harvest Home Chorals

· Anton von WEBERN (1883-1945) - “I - cantata”

A música segue as tendências das demais artes, senão vejamos:

“Em vez de reproduzir exatamente o que vejo diante de mim, faço exatamente o contrário com a cor. Busco sempre uma forma de expressão mais forte”.

Vicente Van Gogh


“Grita a miséria; o homem grita por sua alma, toda a época se faz ecoar por um único grito de socorro. A arte também grita, há uma profunda obscuridade, grita pedindo socorro, grita pelo espírito: isto é o Expressionismo”.

Hermann Bahr


Entre outras tendências, as palavras do pintor e do poeta testemunham a tendência da época.





Observe-se nesta obra de Anton von WEBERN (1883-1945):

· os saltos da voz tem um caráter instrumental, demonstrando um estado de extrema excitação.

· os matizes, surpreendem pelos contrastes que produzem entre as palavras pertencentes a uma mesma idéia

- a frase “schlug ein” aparece com um sentido altamente dramático com os efeitos de sf - p - cresc. - f.

· a tonalidade foi abolida, assim como os últimos vestígios de período métrico e simetria das frases, características do classicismo

· atrás de uma aparente de desordem, surge uma forte agitação expressiva construindo uma trama muito bem consolidada.


Novos objetivos e o neoclassicismo

Mencionarei a seguir alguns dos compositores e suas obras características deste novo movimento:


· Paul HINDEMITH (1895-1963) - “Six Chansons”

· Luigi DALLAPICCOLA (1904-1975) - “I cori do Michelangelo Buonarroti il Giovane”

· Igor STRAWINSKY (1882-1971) - “Ave Maria”

· Benjamin BRITTEN (1913-1976) - “A cerimony of carols”
Frente á explosão emotiva do Expressionismo, alguns artistas buscam a medida, o cálculo e o equilíbrio arquitetônico, fatores que se convertem em valores estéticos. Igor STRAWINSKY (1882-1971), em sua fase neoclássica, explica a música como mero jogo de formas sonoras, sem nenhum maior significado que aquele inerente a ele mesmo.

Neste processo de busca de novas maneiras, novas tendências, destaca-se o neoclassicismo e o folclorismo.
Neste tipo de tendência, percebe-se um equilíbrio melódico e rítmico entre as vozes do côro, que se tornam completamente independentes entre si, dentro de um estilo puramente polifônico, e em muitos casos aparece a utilização de uníssonos, lembrando um pouco o canto gregoriano.
Os compositores da época passam a utilizar muitos textos arcaicos, utilizando esquemas de composição muito idêntico ao que se utilizava no séc. XV e XVI, como as técnicas de contraponto e a utilização de modos antigos e eclesiásticos.
Paralelamente a esta volta, mesclam-se técnicas modernas, como a polimetria, ou seja, a superposição de compassos diferentes, como no exemplo abaixo de Wolfgang FORTNER (1907), utiliza-se das raízes da música do séc. XVI. Duas melodias diferentes e independentes onde não há a coincidência de compassos. Para que as audição seja clara é necessário evidenciar bem as notas marcadas com acentos.




Carl ORFF (1895-1982), também utiliza-se das mesmas fontes em seus ballets, oratórios e óperas.

O compositor alemão utiliza como fundamento elementos rítmicos e harmônicos em ostinato, prática musical de povos primitivos que cumpre uma função ritual e mágica em suas cerimônias. Orff utiliza estes efeitos em sua obra, não só para dar um sabor arcaico, mas para conseguir efeitos de êxtase e excitação. Outra características destas composições, é que tudo circunda sobre motivos breves formados por poucas notas. Pode-se notar ainda o emprego das técnicas do organo - utilizada por volta do séc. X, em muitas de suas obras, basta verificar as linhas das vozes superiores e inferiores e perceber como ele utiliza esta técnica - observe a côro de “Catulli Carmina” - “Nunc iam illa non vult” - observe a voz do baixo e também as três vozes superiores.


Exemplo: a)


Exemplo: b)



Folclore

Aqui enquadramos uma série de compositores que utilizaram o folclores como fonte de inspiração para suas obras. Dentre muitos compositores da época, destacamos:

· Igor STRAWINSKY (1882-1971) - com suas cações camponesas russas para côro feminino.

· Bela BARTÓK (1881-1945) - em seus cantos eslavos e campestres.

· Heitor VILLA-LOBOS (1887-1959) - em suas quase 1500 obras sobre temas populares, indígenas e folclóricos do Brasil.


· Luiz GIANNEO (1896-1968) - compositor argentino, também utilizando o folclore e a música popular como referência para sua criação.

· Alberto GINASTERA (1916-1983) - seu repertório em parte baseado no folclore argentino. É considerado um dos maiores compositores da Argentina.

· Manuel de FALLA (1876-1946) - compositor espanhol, grandemente influenciado pelo folclores espanhol. É considerado um dos mais importantes compositores de seu país.


Os compositores desta época realizavam muito a mudança de compassos para acompanhar o verdadeiro sentido e dando uma correta declamação á palavra. Toda a música destes compositores nacionalistas repousa sobre o vigor rítmico e sonoro de seu folclores, ou música popular.

Bela BARTÓK (1881-1945) referia-se á música folclórica da seguinte maneira: “a música pura do povo, pode contribuir e em muito para o enriquecimento da chamada música artística... devemos nos entregar ao estudo do significado e de todas as circunstâncias da vida de um povo e refletir sobre os efeitos destas impressões sobre uma obra musical”. Estas palavras refletem seu testemunho e atitude sobre suas muitas obras que se nutriram no folclore vivo de sua pátria.

Novos enfoques

No século XX surge uma nova corrente de pesquisa musical, onde são abordadas novas linguagens, como sugestão menciono alguns dos principais compositores deste século:

· Krzysztof PENDERECKY (1933 - ) - compositor polonês - entre as obras para côro destaco uma de suas principais obras: “Stabat Mater” e “Agnus Dei”.

· Luigi NONO (1924 - ) - compositor italiano - “ll canto sospeso”.

· Gyorgy LIGETI (1923 - ) - compositor hungaro - entre as muitas obras para côro misto “a cappella”, entre elas: “Lux aeterna”, “Pápainé”, “Magány”, “Éjszaka” e “Reggel”, e para vozes femininas: “Mátraszentimrei Dalok” e “Idegen földön”, entre muitas outras.

· Jan NOVÁK (1920 - ) - compositor tcheco - “Exercitia Mythologica”.


Para que um côro amador possa cantar este tipo de repertório, deve passar por um intenso treinamento. Os cantores vão defrontar-se com grandes intervalos melódicos e dificuldades rítmicas, que exigirão do cantor uma grande firmeza rítmica. As obras deste período podem possuir diversas vozes por naipe, com ritmos e desenhos melódicos totalmente diferentes, em alguns casos, o compositor sugere a quantidade de coralistas, por exemplo, uma obra para quatro sopranos, quatro contraltos, quatro tenores, quatro barítonos e quatro baixos, deve ser cantada por apenas vinte coralistas, por limitação estabelecida pelo próprio compositor. Como já mencionamos, algumas destas obras podem possuir inclusive características de semelhança estrutural oito melódica, muito semelhante à de compositores como Giovanni-Pierluigi da PALESTRINA (1525-1594) e Claudio MONTEVERDI (1567-1643).

A seguir temos um exemplo de obras recitadas, onde são utilizadas figuras musicais convencionais, que podem estabelecer apenas seqüências rítmicas. A emissão vocal, vai depender apenas do conteúdo do poema.


Podem aparecer obras com sílabas soltas, sem qualquer sentido, apenas com sentido onomatopaico, onde o som cantado pode não possuir alturas definidas, misturando-se com voz falada ou com sussurros, por exemplo.

Em geral este tipo de composição possui uma pequena “bula” onde estão explicados os diversos sinais utilizados e como utilizá-los.






Um dos primeiros compositores a utilizar a linguagem para coros recitados, foi Darius MILHAUD (1892-1974).

Muitos compositores ao escreverem para côro, esquecem que a grande maioria dos corais é composta de amantes da música e que são integrados não por músicos profissionais.

No entanto alguns compositores escreveram obras destinadas a não profissionais, os quais gostaríamos de destacar aqui:

· Paul HINDEMITH (1895-1963) escreveu diversas obras visando o aperfeiçoamento dos jovens e para as escolas de música, como é o caso de “Jugend und Schulmusiken” (Treinamento elementar para músicos - edição Ricordi Brasileira).

· Darius MILHAUD (1892-1974) - o compositor francês escreveu a obra “Da musique en famille et à l’ecole” (A música em família e na escola).

· Sir Michael TIPPETT (1905 - ) - compositor inglês.

· Bela BARTÓK (1881-1945) - compositor húngaro, foi um dos compositores que mais escreveu para crianças e jovens estudantes.

· Zoltan KODALY (1882-1967) - compositor húngaro dedicou muitas de suas obras á criança, além de desenvolver um método para o ensino da música entre crianças, conhecido por método Kodaly, entre outras inovações, harmonizou mais de mil músicas na forma de côro, entre outros temas científicos e didáticos.

· Carl ORFF (1895-1982) - o compositor alemão dedicou todo o seu dinheiro e trabalho para desenvolver um método de educação musical para crianças, jovens e adultos, método este chamado na Alemanha de “Schulwerk”.

· Heitor VILLA-LOBOS (1887-1959) - entre as grandes obras sinfônicas para côro, Villa-Lobos dedicou uma grande parcela de sua vida á composição de obras corais “a cappella” e com acompanhamento de piano, destinadas aos coros de escolas, que ele mesmo dirigia, movimento este que se iniciou no Rio de Janeiro e que aos poucos se propagou por todo o Brasil, a partir de 1930.

Nos dias de hoje, poucos compositores dedicam-se a escrever obras acessíveis a coros amadores, por este motivo, aconselho aos maestro a estimular seus cantores ao estudo da música, ou até mesmo dedicar algum dia de ensaio, ou dia extra, para ensinar seus cantores a linguagem musical, tão importante e tão necessária para melhor exercer a arte de cantar.

Extraido do livro: MARTINEZ, Emanuel - REGENCIA CORAL - princípios Básicos - Editora D. Bosco, Curitiba (2000)

6 comentários:

Carlos A Correia disse...

Boa Noite Maestro,

Cadê o artigo?

[]s

EMANUEL MARTINEZ disse...

Desculpe a falta do artigo, em breve ele estará aqui, o ano passado foi muito corrido e não tive como colocar, mas agora eu colocarei o artigo.
Abraços

Carlos A Correia disse...

Opa... agora sim....! rs

Acabei de ler.

Muito interessante a partitura do "coro recitado". Não conhecia este tipo de obra.

Neste século, qual a tendência que você vê nas músicas (seja para côro ou orquestra)?

Eu como compositor tenho muito interesse em saber estas tendências... não porque eu deva seguir, mas mais para conhecimento e aquisição de bagagem.

Como em todas as artes há um ciclo (com o passar do tempo, creio eu, há "apenas" uma ampliação das técnicas e abordagens utilizadas), e creio que podemos fazer um paralelo em algum ponto do passado... mas qual seria? Ou estaria simplificando d+?

Espero seus comentários aqui ou em uma nova postagem. Q tal?

[]s
Carlos A Correia
gutovysk@yahoo.com.br

EMANUEL MARTINEZ disse...

Carlos
No momento histórico há diversos caminhos paralelos, uma linguagem, estilo clara ainda não há. Existem diversas correntes no planeta, aqueles que escrevem tonalmente com mais ou menos dissonâncias, aqueles que escrevem aleatoriamente, aqueles que escrevem formalmente mas de forma atonal, aqueles que escrevem figuradamente, ou seja, não há uma linguagem bem definida atualmente. Acho que todos nós compositores estamos escrevendo da melhor maneira possivel, cada um buscando sua identidade musical. O consenso é não ter consenso.
Abraços.

Me escreva direto no meu e-mail:
martinezemanuel2@gmail.com

Carlos Augusto Correia disse...

Boa Noite Emanuel,

Tomei coragem e criei o blog sobre Técnicas de Composição! Hoje fiz uma última revisão. Agora vou começar a divulgar.

Postei 2 mensagens. A primeira sobre o blog e a segunda (última) sobre cânone.

Dê uma olhada, e fique a vontade para opinar, corrigir, sugerir, seja o que for.

Segui o seu modelo do blog, para dar coerência, uma vez que temos a mesma ideia: Técnicas de Composição

Eu expliquei isso na primeira msg.

abraços,

Anônimo disse...

Olá Emanuel, ótima iniciativa seu blog cultural.
Valeu.